ENTREVISTA: Presidentes da ABIMEI e da TRUMPF falam sobre consequências da Resolução 63 para a indústria nacional

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Publicada no dia 10 de setembro pela CAMEX, a Resolução 63 aumentou o imposto de importação sobre máquinas de corte laser para 14%, sendo vista como prejudicial às industrias do mercado interno brasileiro. O órgão responsável por regular o comércio exterior do Brasil aplicou ainda retirou a isenção que este tipo de máquina possuía por não ter produção similar no mercado interno.

A ABIMEI – Associação Brasileiros dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais – se posicionou perante a medida com nota de protesto em relação à medida (leia a nota na íntegra no final).

Em entrevista exclusiva ao Portal Aquecimento Industrial, o presidente da ABIMEI, Paulo Castello Branco e o diretor presidente da TRUMPF Brasil, comentam as consequências que a Resolução pode trazer para a indústria nacional. Confira abaixo.

 

Portal Aquecimento Industrial: Quais as consequências da Resolução 63 para a indústria nacional?

J.C. Visetti, diretor-presidente da TRUMPF Brasil: Alguns segmentos da indústria conseguiram se recuperar graças à exportação. Manter-se competitivo em nível global requer aumento constante da produtividade e, para isso, o acesso à tecnologia de ponta é essencial.  Se pegarmos os segmentos de equipamentos para construção, agrícolas e implementos rodoviários, encontramos empresas que precisam aumentar sua produtividade, através de investimentos diretos ou indiretos, na sua cadeia de produção. Esta medida acaba de colocá-las em desvantagem frente às cadeias de fornecimento de outros países, por falta de acesso à tecnologia de ponta, a custos competitivos

Há um outro aspecto nesta medida que precisa ser discutido: uma suposta proteção da proteção nacional. Essa é uma visão distorcida, por dois motivos: tecnologia demanda investimento em inovação. E isso custa muito dinheiro. A TRUMPF, por exemplo, investiu 400 milhões de euros em desenvolvimento tecnológico somente no último ano fiscal. Ainda assim, não produz suas máquinas de corte laser na Alemanha. Prefere produzir na Suíça, onde tem uma planta capaz de produzir mais de 1200 máquinas/ano e é a principal unidade produtiva do grupo. Alguns modelos são fabricados também nos Estados Unidos, para o Nafta, e na China, para o mercado asiático. Isso é visão global do uso da tecnologia e dos recursos. Antes de lançar comercialmente uma máquina nova, a TRUMPF coloca no mínimo 10 protótipos em clientes-teste, por um período de 18 a 24 meses, para ter certeza de seu desempenho e corrigir seus pontos fracos. Não há fabricante no Brasil com essa capacidade de investimento.

 

PAI: É discutido no meio industrial que o Brasil passa por um processo de desindustrialização. Como esta Resolução pode retardar ainda mais uma leve retomada que a indústria nacional tem apresentado nos últimos meses?

J.C. Visetti, diretor-presidente da TRUMPF Brasil: O Brasil vem se desindustrializando devido à falta de investimentos em inovação e consequente perda de competitividade da indústria local. O Brasil é um dos poucos países que tributa o investimento. Se analisarmos casos de sucesso como a Coreia do Sul, que nos últimos anos ganhou muita produtividade, percebemos que o mercado aberto e a respectiva exposição à concorrência obrigam as empresas a se prepararem muito mais.  Em resumo, esta medida não ajudará em nada a indústria nacional, pois o equipamento aqui produzido não tem a mesma produtividade e eficiência tecnológicas.

João Carlos Visetti, diretor-presidente da TRUMPF Brasil. Crédito Imagem: Assessoria de Imprensa

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI:  A medida da Camex vai no sentido contrário do que o Brasil deveria seguir. Ao invés de se abrir para o mundo e para as melhores tecnologias disponíveis, o País fecha as portas cada vez mais, e fecha os olhos para o fato de que nenhuma empresa aqui tem a capacidade técnica para fabricar máquinas de corte a laser como os mesmos recursos e produtividade que os importadores trazem para o país. Isso, portanto, só contribui para esse processo de desindustrialização do Brasil. Some-se a isso o fato de que barreiras às importações de meios de produção e tecnologias estrangeiras acabam reduzindo a capacidade de exportação brasileira de produtos manufaturados reduzindo nossa competitividade internacional.

 

PAI: Quais os segmentos da indústria mais afetados por esta medida?

J.C. Visetti, presidente TRUMPF Brasil: Equipamentos para construção, linha amarela, máquinas e implementos agrícolas, ônibus, caminhões e implementos rodoviários, indústria eólica e solar.

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI:  Os setores mais afetados são aqueles que utilizam corte de chapas. Podemos citar especialmente o setor automobilístico e de autopeças, o setor chamado linha amarela que são os fabricantes de máquinas para construção civil, como retroescavadeiras, niveladoras e os fabricantes de máquinas agrícolas em geral.

 

PAI: No comunicado da ABIMEI é enfatizado que não há tecnologia semelhante no Brasil. E vivemos um momento em que o governo também tem cortado investimentos em pesquisa em universidades e institutos, que são fundamentais para o desenvolvimento de novas tecnologias. Posto este cenário, qual o caminho? Qual o maior desafio dos industriais do setor?

J.C. Visetti, presidente TRUMPF Brasil:  Inovar é ser protagonista em alguns setores, como já somos no agribusiness. Hoje, empresas nacionais buscam entrar em um mercado saturado, onde a única forma de serem competitivos é através de medidas protecionistas. Esta fórmula não tem futuro.

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI:  O maior desafio do Brasil é, primeiro, mudar a mentalidade, a cultura. Isso, é claro, leva tempo. Mas a história e as experiências de outros países mostram que o caminho para uma indústria forte é a abertura comercial no setor produtivo. Não adianta continuar com a crença de que devemos “proteger” duas ou três empresas de pequeno porte no país que tentam desenvolveram uma linha de montagem de máquinas, se utilizando de componentes importados que são basicamente o que determina a tecnologia da máquina como no caso dos componentes principais da máquina de corte a laser e na realidade somente fabricam no Brasil o frame ou o chassis e a as carenagens, porque estamos na verdade desestimulando a inovação e a pesquisa. É isso que deve mudar. É necessário que se entenda que é melhor para o país que as empresas nacionais invistam em tecnologia, pesquisa e inovação, ao invés de se acomodarem por trás de taxas de importação abusiva, mantendo o país em um nível de tecnologia e produtividade muito baixo.

 

PAI: Estamos em meio do processo eleitoral. A ABIMEI pretende pressionar os candidatos para que a Resolução seja revista?

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI: A ABIMEI está tomando todas as medidas cabíveis para lutar contra esse retrocesso, inclusive com presença em Brasília.

 

PAI: Pautas para recuperar a economia de alguns candidatos à presidência – e do atual governo – é, em tese, estimular o Livre Mercado e atrair empresas estrangeiras. Esta Resolução vai contra o argumento? De forma prática, como pode repercutir no mercado externo entre as organizações que ainda veem o Brasil como uma boa praça?

J.C.Visetti, presidente TRUMPF Brasil: Hoje, as empresas investem onde podem ser mais competitivas e, claro, obter o maior retorno. Se continuarmos a colocar barreiras para a entrada de tecnologia de ponta, elas vão investir em outros países. Infelizmente, na cola das empresas de ponta vêm outras, com produtos simples e baratos. Mas as vendas destas soluções, devido às características desta indústria, são marginais.

Paulo Castelo Branco, presidente da ABIMEI. Crédito Imagem: Assessoria de Imprensa

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI: Para nós, é muito claro que essa medida só prejudica a imagem do Brasil no exterior. Somos cada vez mais vistos como um país fechado para as tecnologias industriais, e parceiros importantes em países desenvolvidos perdem mais e mais o interesse de fazer negócios com o Brasil por acharem que o país não tem proteção jurídica e tributárias, em razão das mudanças das regras a qualquer momento.

 

PAI: Como esta medida afetará o consumidor final tanto em termos de preço quanto de qualidade?

J.C. Visetti, presidente TRUMPF Brasil: Sem dúvida, acabará elevando o preço do produto final.

Paulo Castello Branco, presidente da ABIMEI:  O consumidor final vai sentir no bolso, pois a cadeia produtiva inteira vai ficar mais cara e o valor final do produto para o consumidor será majorado.

 

Nota da ABIMEI à imprensa.

A indústria brasileira recebeu mais um forte golpe no que diz respeito à competitividade: uma resolução 63, publicada no dia 10 de setembro pela CAMEX, que julgamos ser absurda e prejudicial às industrias do mercado interno brasileiro. O órgão responsável por regular o comércio exterior do Brasil aplicou, com uma canetada, uma alíquota de imposto de 14% sobre a importação de máquinas de corte a laser, retirando a isenção que este tipo de máquina possuía por não ter produção similar no mercado interno. A medida pegou de surpresa todas as empresas que fabricam em outros países e trazem esse tipo de tecnologia ao Brasil, especialmente porque não existe, na prática, tecnologia similar produzida no País. A única empresa que supostamente fabrica essas máquinas é, na realidade, uma empresa de pequeno porte que apenas agrega poucos componentes produzidos por terceiros e importa todos os equipamentos da tecnologia de geração do laser (que têm patente registrada por outra empresa em outro país). Além disso, as poucas unidades que foram colocadas no mercado ainda não passaram sequer por aprovação técnica dos usuários deste tipo de equipamento. Trata-se de um retrocesso completo e absoluto. No momento em que o Brasil deveria estar promovendo uma abertura comercial, medidas como essa mostram como alguns poucos elementos do setor de fabricação de máquinas do mercado interno querem fechar os olhos ao mercado externo. Fechar os olhos, aliás, para todas as tendências de abertura de mercado do mundo desenvolvido. Esses elementos preferem criar uma proteção de mercado absurda para tentar viabilizar a montagem de máquinas ultrapassadas que não têm a menor chance de concorrer com a tecnologia de máquinas que já existem em grande número no Brasil, importadas com tecnologia de ponta de países europeus e asiáticos. Com esta ação, os órgãos governamentais dão aval à irresponsabilidade cometida por empresas que querem se beneficiar de proteções que existiam em grande número no passado e que não incentivam a pesquisa, o desenvolvimento ou a inovação. Demonstram, ainda, que aqui ainda existe uma visão completamente deturpada do que é o mundo globalizado, fazendo com que empresas estrangeiras fiquem cada vez mais avessas a formalizar qualquer tipo de parcerias com as companhias de um país onde não sentem estabilidade ou segurança jurídica e tributária. Ressaltamos que o Brasil não tem a menor condição de oferecer à indústria a tecnologia de uma máquina de corte a laser que os importadores trazem para o País. A medida da CAMEX vai, portanto, apenas encarecer de 20% a 40% toda a cadeia produtiva, especialmente em setores como automobilístico, linha amarela e máquinas agrícolas. Qualquer indústria que utilize corte de chapas com esta tecnologia de laser vai sofrer com a nova resolução, e quem sofre as consequências finais, como sempre, são os usuários ou o povo que consome os produtos produzidos no Brasil: ou pagarão mais por conta do aumento do custo das máquinas importadas, ou terão produtos de qualidade comprometida pelas maquinas nacionais montadas com tecnologia ultrapassada. A ABIMEI vai contestar essa medida com todos os recursos disponíveis, e convoca publicamente as empresas usuárias que queiram aderir e lutar por esta causa de um país mais competitivo, produtivo e forte.

 

Por André Gobi

Bacharel em História pela UNESP, também estudou Jornalismo Empresarial e Assessoria de Imprensa na Universidade Gama Filho. Atualmente, cursa a pós-graduação em Jornalismo Científico na UNICAMP, e responde pela redação do Portal Aquecimento Industrial.



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