carro elétrico sendo carregado

O ETANOL E ELETRIFICAÇÃO DOS VEÍCULOS BRASILEIROS

Caros leitores, o setor automotivo vem passando por uma transformação global com a introdução contínua dos veículos eletrificados, definindo estratégias claras e agressivas para cada montadora, temas os quais têm subsidiados os fóruns técnicos brasileiros no sentido de se envolverem nas mais diversas opiniões sobre o futuro desta tecnologia e a posição do nosso país frente a esta nova realidade. Diante desta situação adversa, pretendo esboçar este cenário através de uma visão pragmática, fugindo do sensacionalismo, interesses mercadológicos da maioria e por fim, explorando um cenário, no mínimo, assustador ou desafiante que paira no mercado nacional e em nosso futuro.

Para começar este debate, primeiro reafirmo aos leitores o interesse total do Brasil no etanol como matriz energética e divisa estratégica comercial desta “commodity” e lembro que este produto atende 100% a visão das tecnologias verdes do planeta, muito diferente dos outros combustíveis provenientes do petróleo. Somos os primeiros e os melhores em usar este combustível nos veículos deste o lançamento do Programa Proálcool em 1975. Também, sabe-se de recentes políticas de países industrializados na viabilização de adições de etanol em outros combustíveis de fontes não renováveis. Porém, a questão mais difícil de responder e pouca alinhada na estratégia automotiva do nosso País e como manter no futuro, o etanol como principal diferencial global e é neste sentido que início o debate, apresentando dois possíveis cenários:

  • Em um prazo de 20 anos o nosso País deve perder o suporte global aos veículos a combustão OTTO, para seguir fortemente com os eletrificados, acompanhar a tendência global e por fim deixar de lado o etanol, nosso principal patrimônio. Todavia, o Brasil tem estado de fora há muito tempo desta corrida tecnológica e pouco aprendeu no campo dos eletrificados e certamente no futuro só nos restará o diferencial de ser um fornecedor de “commodities”, como por exemplo: matéria prima para baterias e motores elétricos e outras diversas para o veículo no geral. Pergunto se estamos certos que queremos apenas esta vocação?
  • A data das montadoras abandonarem os veículos a combustão parece estar definida, todavia a partir de 2030 até 2040, entende-se que a grande maioria dos veículos globais já serão elétricos e híbridos e para um momento posterior, o domínio dos movidos por células a combustível a hidrogênio; por outro lado, o Brasil manterá o veículo a combustão como estratégia principal e política local e pouco incentivará a estruturação do mercado para a eletrificação. Ao final, teremos na grande maioria os veículos à combustão ainda rodando em nosso país. Este cenário é muito preocupante, já que no futuro não teremos mais a amortização do custo das peças dos veículos OTTO, isto é, a descontinuidade das linhas globais deste segmento levará a elevação contínua o custo de cada peça veicular, fruto da baixa escala de produção. Pergunto: quem pagará esta conta?

As declarações de autoridades e empresários miram pontos específicos dos interesses brasileiros, mas não fecham a estratégia que precisamos para sermos competitivos e levarmos o Brasil para dentro da rota dos veículos do futuro. Basta olhar o panorama automotivo como um todo, sem preferenciar interesses pontuais; que ao final, teremos claramente um caminho a seguir. Precisamos sim manter o etanol nesta matriz energética e por isto é muito importante tornar nossos veículos a combustão mais eficientes energeticamente e com isto, viabilizar o interesse neste produto por um longo prazo, até que a troca para eletrificação ocorra por inteiro, mas já dentro do campo dos veículos a célula a combustível; detalhe, células com aplicação de etanol na geração do hidrogênio, diferentemente da rota global que emprega o hidrogênio puro diretamente nos veículos; porém trata-se de uma nova tecnologia possível e factível de ocorrer neste cenário, que pode ser incluída perfeitamente na maioria das partes do veículo do futuro, apenas mudando a forma de abastecimento, de hidrogênio pelo etanol; debaterei este tema em outra edição da IH.

Estas duas estratégias poderão ser a base para trilhar uma única rota brasileira, porque o aumento da eficiência dos motores OTTO tornará estes veículos tão verdes como os eletrificados e em um passo futuro, a geração de energia elétrica através do emprego do etanol na célula a combustível seria a melhor das situações para manter útil este patrimônio brasileiro e com ele, a estrutura atual de abastecimento, e ainda gerar uma matriz energética 100% verde.

Olhando para o futuro; não acredito que estaremos fora da rota global, certamente produziremos outras “commodities” para os veículos eletrificados, criaremos uma estrutura nacional de recargas de baterias  e começaremos a montar estes veículos dentro de nosso território, mas ainda precisaremos de uma política pública clara para valorizar as tecnologias locais e criar nossas próprias vantagens tecnológicas no uso contínuo do etanol, senão no futuro, venderemos só  açúcar e ”garapas” no lugar do etanol.

 

Marco Antônio Colósio

Diretor da Regional São Paulo da SAE BRASIL. Engenheiro
Metalurgista e Doutor em Materiais pelo Instituto de Pesquisas
Energéticas e Nucleares-USP, pós doutorado pela EESC-USP.
Professor titular do curso de Engenharia de Materiais da
Fundação Santo André e professor da pós graduação em Engenharia
Automotiva do Instituto de Tecnologia Mauá. Colaborador e
associado da SAE BRASIL com mais de 30 anos de experiência
no setor automotivo nos campos de especificações de materiais,
análise de falhas, P&D e inovações tecnológicas

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